Existe uma palavra antiga que quase desapareceu do nosso vocabulário cotidiano. Uma palavra que, por séculos, descreveu a forma mais natural que as comunidades humanas encontraram para cuidar dos recursos que sustentam a vida: commons, em português, bens comuns.

Se você nunca ouviu falar nisso, não é por acaso. E entender por que esse conceito foi esquecido e por que está ressurgindo com urgência, é entender algo fundamental sobre o mundo em que vivemos e o que precisamos reconstruir.

Rio e floresta ao amanhecer — a natureza como bem comum

O Que São Bens Comuns?

Em linguagem simples: bens comuns são recursos compartilhados, cuidados e governados por uma comunidade, segundo as suas próprias regras.

Podem ser físicos, uma floresta, um rio, uma terra agrícola, uma horta comunitária, uma fonte de água. Ou podem ser imateriais, conhecimento, cultura, software de código aberto, sementes tradicionais, sistemas de cuidado mútuo. O que os define não é o tipo de recurso em si, mas a relação que uma comunidade estabelece com ele: de responsabilidade compartilhada, uso consciente e cuidado de longo prazo.

Um bem comum não pertence a ninguém em particular. Mas também não é "de ninguém". Ele pertence à comunidade que o habita, que o cuida e que estabelece, por conta própria, as regras de como ele será usado e preservado.

Michel Rauchs, pesquisador da iniciativa Growing the Commons, define o commons a partir de três elementos interdependentes:

  • Um recurso compartilhado físico ou imaterial;
  • Uma comunidade de pessoas que o usa e gerencia coletivamente;
  • Um conjunto de regras e normas criadas e mantidas por essa comunidade para garantir acesso justo, uso responsável e cuidado de longo prazo.

Mais do que uma estrutura, os bens comuns são uma prática viva, um processo contínuo de cuidado coletivo e co-criação. Por isso, em inglês, muitos preferem usar o verbo: commoning: o ato de fazer commons, de viver em comum.

A própria etimologia da palavra carrega isso: o termo vem do latim munus, que significa ao mesmo tempo dom e contra-dom. Um commons sempre implica reciprocidade, o dever de receber e de devolver.

Jovens reunidos ao ar livre — a essência dos bens comuns

A Grande Ruptura: Como os Enclosures Destruíram os Bens Comuns

Por milênios, os bens comuns foram a forma principal como as comunidades humanas organizavam sua vida. Florestas, rios, pastagens, pesqueiros, tudo isso era gerido coletivamente. Em muitas tradições indígenas, a relação com a terra, a água, as plantas e os animais era sagrada: a natureza era parente, não mercadoria.

Esse mundo foi sistematicamente desmantelado. E para entender como, precisamos olhar para um dos processos mais violentos e menos estudados da história moderna: os Enclosures, os Cercamentos.

O Que Foram os Enclosures

Os Enclosures foram um processo histórico ocorrido principalmente na Inglaterra entre os séculos XVI e XIX, em que terras antes comunais, de uso coletivo, foram cercadas e transformadas em propriedade privada. Antes disso, grande parte do campo inglês funcionava no sistema de campos abertos e terras comuns, onde:

  • camponeses cultivavam em faixas de terra compartilhadas;
  • utilizavam áreas comuns para pasto, coleta de lenha, caça e subsistência;
  • decisões agrícolas muitas vezes eram tomadas comunitariamente.

Não havia propriedade privada plena como a conhecemos hoje, havia direitos de uso compartilhados, enraizados em séculos de tradição comunitária.

Como e Quando Aconteceu

O processo ocorreu em ondas que se intensificaram ao longo de três séculos:

Cercamentos Iniciais (séculos XVI–XVII): Motivados pela expansão da produção de lã, os senhores de terra começaram a cercar campos para criar ovelhas, expulsando camponeses de suas terras ancestrais. Surgem os primeiros conflitos, e os primeiros movimentos de resistência, como os Escavadores (Diggers) em 1649, que defendiam o uso comum da terra e denunciavam a crescente desigualdade.

Cercamentos Parlamentares (1750–1850): A fase decisiva: o próprio Estado inglês legisla a favor dos grandes proprietários. Cerca de 7 milhões de acres foram cercados por leis parlamentares. Pequenos agricultores receberam compensações mínimas ou terras improdutivas. O resultado foi devastador.

No final do século XIX, 0,6% da população possuía 98,5% das terras agrícolas inglesas.

Como registra o pesquisador Samuel Delesque no Manifesto dos Commons Regenerativos (OASA, 2025), isso não foi um acidente, foi uma pré-condição deliberada para a Revolução Industrial. A estudiosa Vandana Shiva sintetiza: "Terra e florestas foram os primeiros recursos a serem cercados e convertidos de bens comuns em mercadorias. Um sistema de suporte de vida pode ser compartilhado, não pode ser possuído como propriedade privada."

O Exílio das Comunidades: O Nascimento das Cidades Superlotadas

As consequências humanas dos Enclosures foram profundas e duradouras. Os camponeses expulsos das terras comunais não tinham para onde ir. Sem acesso à terra que por gerações havia sustentado suas famílias, foram forçados a migrar para as cidades em busca de sobrevivência.

Esse êxodo rural em massa foi o combustível humano da Revolução Industrial. As pessoas que antes viviam em comunidades rurais integradas, com acesso coletivo aos recursos da terra, tornaram-se operários urbanos, dependentes de um salário para obter o que antes produziam juntos. A população rural inglesa despencou de 65% para 23% entre 1851 e 1901.

Nasciam assim as cidades superlotadas: massas de pessoas disputando os mesmos poucos recursos que sobravam, moradia precária, trabalho degradante, água insalubre. O isolamento social substituiu a solidariedade comunitária. O indivíduo atomizado substituiu a comunidade como unidade básica da vida.

"Os cercamentos não apenas conquistaram terras, eles tentaram apagar o papel co-evolutivo dos humanos na natureza, e com ele, a própria memória de que outra forma de viver já existiu e funcionou por milênios."
— Manifesto dos Commons Regenerativos, OASA 2025

O Brasil: um Enclosure Sem Comuns Formais

O Brasil não passou pelos mesmos Enclosures europeus, mas viveu um processo ainda mais violento. Aqui, a concentração de terra não veio depois de um comum que existia: ela foi imposta desde o início, pela colonização.

  • A colonização (séc. XVI) distribuiu terras em grandes lotes (sesmarias), formando latifúndios sobre monocultura e escravidão;
  • A Lei de Terras de 1850 determinou que terra só poderia ser obtida por compra, excluindo sistematicamente ex-escravizados, povos indígenas e trabalhadores pobres;
  • Nos séculos XX e XXI, a expansão do agronegócio, a grilagem e o desmatamento da Amazônia e do Cerrado reproduzem a mesma lógica: cercamento sem cercas físicas, mas com títulos de propriedade, expulsão indireta e violência.

O resultado histórico é semelhante ao inglês, mas agravado: concentração fundiária extrema, êxodo rural massivo no século XX, e o crescimento de periferias urbanas repletas de pessoas que perderam o acesso à terra e à vida comunitária.

Os Novos Cercamentos: Uma Lógica que Não Para

Hoje, o cercamento não é só de terra física. A mesma lógica histórica, retirar o acesso coletivo, privatizar, monetizar, avança sobre outros domínios:

  • Terra (land grabbing): empresas e países comprando terras em massa na África e América Latina, deslocando comunidades locais;
  • Água: privatização de fontes e sistemas, com acesso condicionado ao pagamento;
  • Sementes e biodiversidade: patentes que impedem agricultores de reutilizar sementes tradicionais;
  • Dados e atenção humana: plataformas digitais cercando o espaço informacional, onde tudo que fazemos online é capturado, monetizado e devolvido como publicidade ou treinamento de IA, sem que sejamos donos dos nossos próprios dados.

O padrão histórico é sempre o mesmo: algo que era compartilhado é apropriado, vira mercadoria. O que mudou são apenas os instrumentos, antes cercas no campo, hoje leis, mercados, algoritmos e finanças.

Vista aérea de aldeia rural tradicional — história dos bens comuns

O Custo da Extração: Colapso Ecológico e Social

Trezentos anos de tratar a terra como mercadoria nos trouxeram a uma encruzilhada planetária. Ao desconectar propriedade de cuidado, o modelo extrativista minou as próprias fundações ecológicas das quais depende.

A perda de biodiversidade atingiu níveis catastróficos. Uma avaliação global alerta que até 1 milhão de espécies estão ameaçadas de extinção nas próximas décadas, a destruição de habitat, impulsionada pela mudança de uso do solo (agricultura, desmatamento, expansão urbana), é a principal causa. Estamos literalmente cortando os galhos do planeta vivo, e a cada ecossistema perdido perdemos também resiliência, estabilidade climática e conhecimento acumulado ao longo do tempo evolutivo.

Quando florestas são derrubadas, a terra perde mais do que armazenamento de carbono. Ela perde a capacidade de regular a água, o clima e os padrões meteorológicos. A ciência hidrológica contemporânea demonstra que as florestas geram ativamente chuvas e puxam umidade para os continentes. Sem nossas florestas, as chuvas se tornam menos estáveis, e já estamos assistindo a isso: o desmatamento na Amazônia está ligado à alteração dos padrões de precipitação, com estações chuvosas mais intensas e secas mais severas.

O modelo de propriedade extrativista transformou a superfície da Terra de forma sem precedentes, de bens comuns em mercadorias, e ao fazê-lo precipitou uma crise de colapso ecológico e instabilidade climática. Mesmo onde gerou riqueza para poucos, falhou em oferecer florescimento humano equitativo: bilhões de pessoas enfrentam insegurança à medida que os solos perdem fertilidade, a água se torna escassa e o clima se torna hostil.

"A 'revolução dos ricos contra os pobres' que o cercamento representou é hoje, em sentido ecológico, uma revolução do presente contra o futuro."
— Manifesto dos Commons Regenerativos, OASA 2025

Estamos consumindo o capital natural acumulado ao longo de eras para alimentar um boom de curto prazo, deixando as gerações futuras à falência em um planeta adoecido. Isso nos coloca diante de uma pergunta urgente: O que vem a seguir? Podemos imaginar, e construir, uma civilização que se reconcilie com a natureza, que devolva a terra aos comuns em nova forma, e que cure o que foi quebrado?


Uma História que Foi Apagada

Esse mundo foi sistematicamente desmantelado. Com o avanço do capitalismo extrativista e do Estado-nação moderno, a partir da Europa e espalhado pelo mundo por meio das colonizações, a cultura de bens coletivos foi cercada, privatizada ou simplesmente destruída.

E não foi apenas fisicamente. Os bens comuns foram apagados também da memória coletiva, dos bancos escolares, cujos materiais didáticos foram enviesados com ideias de individualização, estímulo à aquisição e proteção da propriedade privada. Aprendemos a ver o mundo pelo olho da acumulação. Esquecemos que existia, e ainda existe, outro caminho.

O suporte teórico para esse apagamento veio em 1968, quando o biólogo Garrett Hardin publicou o famoso ensaio "A Tragédia dos Commons". Usando um cenário teórico simplificado e reducionista, ele argumentou que indivíduos com acesso a um recurso compartilhado inevitavelmente o destruiriam por pura ganância. Essa ideia se espalhou como fogo, fornecendo a justificativa acadêmica para mais privatizações.

O problema é que Hardin descreveu o caos sem regras, não o verdadeiro commons que funcionou por milênios. Ele ignorou que comunidades reais constroem normas, monitoram o uso coletivo e criam mecanismos de responsabilização.

A refutação definitiva veio em 1990, com a obra monumental da cientista política Elinor Ostrom: Governing the Commons. Com décadas de pesquisa de campo em todo o mundo, ela documentou como comunidades geriam recursos compartilhados com sucesso por séculos, de forma mais sustentável e resiliente do que o mercado ou o Estado. Em 2009, ela recebeu o Prêmio Nobel de Economia, a primeira mulher a conquistar esse nobel, justamente quando os mercados financeiros globais estavam em colapso.


O Que os Bens Comuns NÃO São

Antes de seguir, é importante desfazer alguns mal-entendidos frequentes.

Commons não são antiestado. Mas desconfiam de grandes burocracias centralizadas que tiram o poder das comunidades e impõem uniformidade de cima para baixo. Muitos commons funcionam em parceria com governos locais. O princípio central aqui é a subsidiariedade: as decisões devem ser tomadas o mais próximo possível de quem é afetado.

Commons não são antimercado. Mas são críticos das práticas corporativas extrativistas e das economias financeirizadas que destroem a reciprocidade genuína. Um commons pode usar ferramentas de mercado quando adequado, desde que orientadas à circulação e regeneração, não à acumulação.

Commons não são contra o lucro. Mas se opõem a modelos que dependem de crescimento infinito para gerar ganhos de curto prazo, ignorando custos sociais e ecológicos. Num commons, qualquer excedente é reinvestido na comunidade que o gerou.

Commons não são contra a propriedade privada. Mas resistem ao cercamento, o processo que converte riqueza compartilhada em ganho privado, excluindo os demais.

Commons não são ideologia ou partido. São pragmáticos, adaptáveis, e capazes de superar as divisões esquerda-direita. Favorecem o empreendedorismo descentralizado e a inovação local; praticam equidade por design; valorizam cadeias produtivas locais e cuidado ecológico; e reduzem a dependência de burocracias estatais centralizadas.

Nota Importante: Commons Não é Comunismo

Sempre que se fala em bens comuns, gestão coletiva da terra ou economia comunitária, surge uma confusão que precisa ser desfeita com clareza: commons não é comunismo.

Dave Darby, no manifesto "A Commoners' Manifesto: Neither Capitalism Nor Communism" (Growing the Commons, 2026), articula isso com precisão: um mundo de commons é descentralizado, estável e enraizado na comunidade, nada a ver com a concentração de poder no Estado que caracterizou os regimes comunistas do século XX.

Tanto o capitalismo quanto o comunismo, em suas formas históricas, centralizam o poder, um nas corporações e nos mercados financeiros, o outro no aparato estatal. O commons propõe uma terceira via: o poder redistribuído para as comunidades, que negociam suas próprias regras em torno de propriedades e recursos compartilhados, sem depender nem do mercado global nem do Estado-nação para existir.

Commons é, na essência, um conceito e uma praxis libertária e autônoma, o oposto de uma ditadura do proletariado: é autorganização local, sem tutela ideológica centralizada.


Três Modos de Organizar o Que Precisamos

Para entender o lugar dos bens comuns no mundo de hoje, ajuda comparar os três grandes modos pelos quais as sociedades organizam o provimento do que precisam para viver:

O Mercado

O acesso é mediado por preços e dinheiro. Eficiente para escala e inovação, mas tende a concentrar riqueza e externalizar danos sociais e ecológicos.

O Estado

O acesso é distribuído por lei, burocracia e direitos. Capaz de oferecer serviços universais e reduzir desigualdades, mas frequentemente lento, distante e vulnerável a captura política e corrupção.

Os Bens Comuns

O acesso é guiado por relações comunitárias e regras compartilhadas. Altamente adaptável às condições locais, promove reciprocidade e uso responsável, mas exige participação ativa e capacidade local sustentada.

O mercado domina quase tudo. Quando falha, recorremos ao Estado. E esquecemos o terceiro caminho — que é o mais antigo e o mais enraizado na experiência humana.

Esses três modos não precisam competir. Podem coexistir, se complementar e se fortalecer mutuamente. O problema é que o equilíbrio está profundamente quebrado. É justamente por isso que restaurar os Commons (bens comuns) é uma necessidade civilizacional, não uma nostalgia.

Mercado local comunitário com produtos frescos — os três modos de provisionamento

Re-Naturalização: Devolver a Terra aos Processos Naturais

A resposta que está sendo formulada por movimentos ao redor do mundo, e que abraçamos na Regen Dharma, é a prática da regeneração. Regeneração significa mais do que uso sustentável; significa curar e restaurar ativamente os ecossistemas para que possam novamente sustentar a abundância.

A renaturalização (rewilding) é um pilar crucial da regeneração. Re-naturalização significa devolver a terra aos processos naturais, permitindo que as florestas se regenerem, os rios serpenteiem e os predadores e presas se reequilibrem. Não significa excluir as pessoas, pelo contrário, convida-nos a gerir áreas degradadas como Agentes Holo-Regenerativos de biomas e comunidades.

Na prática, renaturalização muitas vezes começa simplesmente por reservar uma parte significativa da terra onde extração intensiva cessa, e as espécies nativas podem reclamar seu nicho. O impacto pode ser dramático: mesmo pequenas reservas podem se tornar fontes de sementes de biodiversidade que se espalham para fora. Exemplos famosos incluem o retorno dos lobos a Yellowstone, que desencadeou cascatas tróficas restaurando vegetação e rios.

De mãos dadas com a renaturalização está a restauração do ciclo da água: em vez de drenar a água da terra o mais rápido possível, como a infraestrutura convencional faz, ralentamos, espalhamos e a deixamos infiltrar na terra. Em ecossistemas saudáveis, a água da chuva é absorvida e liberada lentamente através de nascentes, mantendo rios perenes e vegetação verde nas estações secas.

"Nossa geração tem a oportunidade, talvez a última, de desfazer parte dos danos, dando à Mãe Terra espaço para respirar e regenerar."
— Manifesto dos Commons Regenerativos

A abordagem regenerativa inverte o roteiro sobre o uso da terra. Onde o velho modelo buscava extração máxima imediata, o novo modelo busca máxima função ecológica. Ao renaturalizar grandes áreas, implementar agrofloresta e agricultura regenerativa nas terras produtivas, redesenhar a gestão da água e promover a biodiversidade, colocamos em movimento processos de cura que se compõem ao longo do tempo.


A Tecnologia a Serviço da Cura

Uma ironia da nossa época é que, embora a tecnologia tenha sido frequentemente usada para conquistar a natureza, ela também pode ser reaproveitada para curá-la e compreendê-la.

Sensores ambientais, imagens de satélite, drones, análise de DNA ambiental (eDNA), plataformas de monitoramento aberto de florestas, todas essas ferramentas podem ser colocadas a serviço da regeneração comunitária. Imagine monitorar a biodiversidade de um rio mergulhando uma garrafa na água e, por meio de análise de DNA, detectando não apenas os peixes, mas os anfíbios, insetos e mamíferos que vieram beber, tudo a partir de alguns litros de água.

A tecnologia não é uma bala de prata. Nós a combinamos com soluções de baixa tecnologia baseadas na natureza. Um sensor pode nos dizer que o solo está seco, mas plantar uma vala de infiltração e mulchar vai realmente consertar. Drones podem mapear a sobrevivência de árvores, mas mãos com pás plantam as árvores.

O caminho da humanidade para o progresso deve enfatizar a resiliência de longo prazo, aceitar a complexidade e colocar a cooperação acima da rivalidade. Ao alinhar a inovação aos princípios da natureza, podemos cultivar um futuro onde prosperemos não apesar da natureza, mas graças a ela.

Nos recusamos a aceitar o colapso ecológico como inevitável. Sabemos que, ao mudarmos nossos sistemas e nossos valores, podemos inverter a tendência de declínio. Este convite se estende a todos que leem estas palavras, seja um tecnólogo, agricultor, tomador de decisão, artista, estudante jovem ou avó aposentada. Todos têm algo a contribuir.


Commons e a Cooperativa Regenerativa: A Proposta da Rede Regen Dharma

A Rede Regen Dharma nasce exatamente nessa encruzilhada. Nossa proposta de cooperativa solidária é, na essência, uma prática de commons: recursos compartilhados — terra, infraestrutura, conhecimento, cuidado — governados pela própria comunidade que os habita, segundo princípios de reciprocidade, subsidiariedade e regeneração.

Quando falamos em Mandalas autônomas, em governança policêntrica, em co-criação de regras a partir do território, estamos falando de commoning na prática. Não é uma teoria. É uma forma de vida que está sendo tecida, passo a passo, entre pessoas que escolhem cuidar juntas do que é de todos.

A cooperativa solidária é a forma jurídica e organizacional que dá sustentação a esse commons. É o instrumento que permite que a comunidade detenha coletivamente o que usa coletivamente, sem precisar entregar ao mercado nem depender do Estado para existir.

O que nos move não é a ideologia. É a necessidade urgente de criar estruturas que permitam às comunidades cuidar da vida, da terra, das sementes, da água, das pessoas, com responsabilidade e alegria.

Pessoas plantando juntas — cooperativa solidária Regen Dharma

Reconstruindo a Matriz Sagrada Tribal

Os Enclosures deram início à destruição dos Bens Comuns da terra e a era das colonizações destruíram povos inteiros com o comércio de corpos escravizados. Destruíram algo mais profundo: a comunidade como base da vida, como disse Vine Deloria Jr. Criaram indivíduos isolados onde havia tecido tribal. Transformaram vizinhos em competidores, e recursos compartilhados em mercadorias a ser disputadas.

A Matriz Sagrada Tribal, um dos pilares da Regen Dharma, é uma resposta direta a esse histórico. É a reconstituição intencional do tecido comunitário: círculos de cuidado, decisões coletivas, celebração do pertencimento. É lembrar o que o humano é por natureza: um ser tribal, e que o isolamento urbano não é uma condição natural, mas uma consequência histórica de um processo que pode ser revertido.

Fogueira comunitária ao entardecer — autorganização local sem tutela central

Já Vivemos Isso. Só Não Sabíamos.

O belo dos bens comuns é que eles já existem ao nosso redor. Quando reconhecemos os princípios do commoning, começamos a enxergá-los em todo lugar:

  • Vizinhos que compartilham o cuidado das crianças ou cultivam juntos uma horta.
  • Bibliotecas de ferramentas e cafés de reparo coletivo.
  • Comunidades digitais que constroem e mantêm software de código aberto.
  • Grupos de sementes crioulas que guardam e circulam variedades tradicionais.
  • Rodas de cuidado que sustentam pessoas em momentos de vulnerabilidade.
  • Projetos de Libertação de Terras para Holoaldeias e Ecovilas.

Há grandes chances de que você já faça parte de um commons. Só ainda não chamava assim.


Retornando ao Lar, aos Comuns

Encontramo-nos numa encruzilhada histórica, um ponto em que devemos escolher entre continuar num caminho de mercantilização que está claramente a falhar, ou embarcar na difícil, mas bela, jornada da regeneração e da reconciliação.

A transição da propriedade extrativista da terra para a gestão regenerativa baseada nos bens comuns não só é possível, já está em curso. Está presente na restauração de zonas húmidas por aldeias na Índia, no jardim comunitário em Detroit que recupera terrenos abandonados, na reintrodução de bisontes em terras ancestrais e em projetos como o nosso.

Nos recusamos a aceitar o colapso ecológico como inevitável. Sabemos que, ao mudarmos nossos sistemas e nossos valores, podemos inverter a tendência de declínio.

Imagine uma rede de bens comuns prósperos espalhando-se pelo globo como brotos verdes — cada um um santuário de biodiversidade, um berço de uma pequena comunidade cooperativa. Imagine as terras áridas tornando-se verdes, os rios correndo límpidos, o coaxar dos sapos à noite e o riso das crianças nas florestas comestíveis. Isso não é uma utopia inatingível. É simplesmente a continuação da história da vida, com nós desempenhando nosso papel legítimo mais uma vez. É, na verdade, um retorno para casa — para os bens comuns que sempre nos sustentaram.
Casal colhendo juntos no jardim — commons já acontece ao nosso redor

Commons não é utopia nem ideologia fechada. É uma forma histórica real, apagada e agora redescoberta. O que os Enclosures fizeram em 300 anos não pode ser desfeito em um dia. Mas cada pedaço de terra libertado, cada comunidade reconstituída, cada semente compartilhada, cada decisão tomada coletivamente, é um passo de volta ao que sempre fomos.

Commons = compartilhar, cuidar, regenerar
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